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  • Antonio Mário Bastos

O homem, o nome

Micro conto


O homem, o nome!


Nada era fácil naqueles tempos. Nada, nada mesmo!

Ele começou a trabalhar ganhando o dia nas fazendas de meus senhores, os grandolas e ricaços do lugar. Escalava os coqueiros com rapidez para tirar mais frutos e ganhar mais. Não reclamava de nada, seguiu sua vida com destemor e respeito a Deus e aos homens.

Constituíra família e precisava conseguir melhores ganhos para o sustento dele e de todos, afinal ninguém lhe pediu para vir ao mundo, tinha obrigação de cuidar da prole que já tinha e da que viesse dali pra frente.

Frequentava a feira livre do lugar, da sede do município onde vivia e da vizinhança, não só para comprar mantimentos para sua casa como para encontrar os patrões e receber o pagamento pelos dias trabalhados, bater papo com os amigos e outros motivos.

Nessas idas e vindas, viu que naquelas feiras livres eram vendidos tudo quanto era espécie de bugigangas: de corda de imbé, fumo de corda, fato de boi, a estribo de sela; de verduras a temperos variados. Alguns punham suas mercadorias estendidas no chão da feira, outros num caixão de querosene Esso, outros em pequenas barracas cuidadosamente armadas e com cobertura para proteção do sol e chuva.

Numa daquelas idas à feira da sede municipal olhou cuidadosamente o que vendiam e o que podia ser vendido e que não estava sendo oferecido aos compradores.

Descobriu que não se vendia temperos secos, a exemplo de pimenta do reino e cominho — esses só eram encontrados em casa de comércio do lugar.

De volta pra casa, na alcova, conversa demoradamente com sua esposa:

— mulher vou vender alguma coisa nas feiras livres: na daqui, na da sede e na do lugar vizinho, ou, quem sabe, em muitos lugares. Onde tiver feira aqui por perto vou lá levar alguma coisa pra vender

— mas Pedro, o que é que tu vai vender, meu marido, se tu só tem o ganho da lida na roça?!

— mulher, andei observando e ninguém vende na feira cominho e pimenta do reino já pisados, já prontos pra jogar na panela e fazer o tempero da comida ficar mais gostoso. Vou apertar umas duas ou três semanas com as compras daqui de casa, diminuir um pouco e vamos se aguentando até eu poder comprar as mercadorias.

— apois tá bem meu marido, se é assim que você quer, vamos cuidar disso. Estamos juntos nessa labuta, pode contar comigo. Quanto à nossa comida eu dou um jeito de preparar para que não falte nada pra ninguém.

Ele assim fez: procurou o dono da venda e comprou uma boa quantidade de cominho e pimenta do reino e umas poucas folhas de papel de embrulho, para pagar no dia que o patrão lhe pagasse os dias trabalhados. Mas o dono da venda ficou curioso.

— Mas Pedro me diga uma coisa, você vai dar algum batalhão pra tá comprando tanto tempero de uma vez só?

— Não meu amo, esse tempero tem outra finalidade. Depois, quando eu vier lhe pagar eu lhe conto tudo sobre isso.

Levara os mantimentos, passou no moinho junto com sua esposa — tudo bem fininho, pronto pra uso nos temperos de qualquer dona de casa — colocou separadamente em dois pequenos caixotes de madeira de umburana que fizera especialmente para isso.

A partir daí começara a frequentar a feira livre como feirante — comerciante — profissional. Já tinha mercadoria pra vender.

E assim seguira na vida: comprando nos armazéns, preparando para a venda e expondo nas feiras livres.

Lá um dia, na feira da cidade, uma freguesa lhe inquirira.

— Moço, esse tempero que o senhor vende é puro?! Porque andei sabendo que tem muita gente misturando com outras mercadorias parecidas e tenho muito medo de não ser puro e colocar essas coisas desconhecidas nas comidas lá de casa.

— Minha senhora, acredite em mim como a senhora acredita em Deus: é puro.

A propaganda boca-a-boa se espalhara, a partir daquela freguesa.

— Vizinha, se você quer comprar tempero bom compre a seu Pedro, é puro.

— Maria onde você comprou esse tempero, tão limpinho e cheiroso?

— Comprei em seu Pedro. É puro, foi comadre Tapuia que me garantiu.

Daí em diante as donas de casa faziam encomendas aos seus maridos:

— o tempero seco compre a Pedro Puro.

E seu nome ficou gravado na mente de todos como Pedo Puro.

Morreu recentemente, quase centenário, depois de criar e encaminhar toda a família.

Deixou saudades, não só a seus familiares, mas a todos nós que o conhecemos — era um exemplo de pai, esposo, amigo, vizinho, de homem probo; conhecia a história do lugar como poucos. Ficou um vazio enorme!

Reverências a um conterrâneo

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