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  • Foto do escritorAntonio Mário Bastos

Coragem tem limites

Coragem tem limites

 

Episódio passado e confirmado nos rincões do sertão da Bahia, lá entre as décadas de 1950/1960. Conheci um dos personagens, que me contara esta história escabriado, diga-se de passagem, por conta do acontecido com o comandante da tropa que ele participara, no cumprimento do dever que lhe impunha a função exercida.

Pois bem, lá nos rincões do nosso sertão baiano, por vezes, alguns povoados mais populosos eram agraciados com uma subdelegacia de polícia e um efetivo policial de no mínimo um cabo e dois soldados.

Houve casos, a depender do prestígio do chefe político municipal, que a guarnição podia contar até mesmo com um sargento, essa patente geralmente já destacada na localidade e que, por merecimento ou antiguidade, fora agraciada com a promoção ao novo posto na Corporação.

Bem verdade que essas guarnições só tinham trabalho mais efetivo nos finais de semana, quando a rapaziada do lugar e de outras povoações se reunia para brincadeiras e bebedeiras e/ou nos dias de feira livre do lugar, quando eram acolhidas pessoas visitantes ou trabalhadoras do ganho na mercancia de produtos diversos, desde alimentos, temperos, perfumarias, brinquedos para crianças, biscuits, urinol, baldes para leite, panelas de metal ou de barro, até “medicamentos”, produzidos à base de raiz ou entrecasca de plantas e outros tantos, sem qualquer autorização sanitária.

Num certo domingo, dia de feira livre, houve uma refrega sem maiores consequências, tendo começado por uma discussão pra lá de banal entre dois jovens sobre qual cavalo era mais veloz, entre os que cada qual defendia e montava o que demandou a marcação de uma corrida de prado para o próximo domingo. Tudo normal, sem qualquer ataque físico, embora tenha ocorrido alguns xingamentos e algumas provocações, naturais quando a bebedeira já passa dos limites e, obviamente, por conta da virilidade dos defensores de lado a lado.

Chegado o dia da corrida dos cavalos. Fora escolhida uma vereda que dava saída do Povoado para outras povoações, com terreno arenoso e plano, e visibilidade quase que linheira, o que era possível todos avistarem a saída e a chegada dos cavalos contendores.

O cavalo desafiador, bem mestiçado por cruza de cavalo de corrida, um russo pintado, altura da cernelha 152 centímetros, era da tropa da Fazenda Jenipapo — propriedade do coroné Vitalino —, acostumado a pega de boi na caatinga, bem fornido e aparentando ter idade na faixa de 8 a 9 anos, de nome Ventania. Seria montado por Zé de Gutinha, seu cuidador na fazenda.

O cavalo desafiado, da tropa da Fazenda Castanha Crua, — propriedade do fazendeiro Ioio Bico de Grota —, um animal bem menor que o desafiador, mestiço alazão, fruto de cruza entre o cavalo esquipador do coroné Arquilino do Juá e uma égua da própria fazenda; sem raça definida, cernelha na altura de 147 centímetros, muda igual de pouco tempo, algumas costelas levemente aparentes, demonstrando não ser um animal bem nutrido, além de constantemente utilizado na lida do gado, de nome Óleo Cru, montado por Zé Prego de Maricota, vaqueiro da fazenda.

As apostas eram variadas e interessantes. Algumas mais avantajadas e com o dinheiro vivo casado, entregue ao dono do Bar Todas as Portas, que anotava os nomes de cada dupla apostante, no verso de uma folhinha do ano com a estampa do escudo do Flamengo do Rio de Janeiro; outras apostas de menor monta, ora valores em dinheiro, ora animais de cria como galinha, porcos, carneiros, etc. Houve até uma dupla que apostou um casal de canário da terra engaiolado[permitido ainda] numa dúzia de coco velado e outra de raspar a cabeça o perdedor, coisa pouco aceita para a época.

Coube a um dos soldados destacados no Povoado o tiro sinalizador para a partida dos cavalos, afinal ninguém se atreveria em ir armado para um lugar desses, mesmo que fosse com a secular espingarda de socar, utilizada na caça de rolinhas, preás, nambus e outras caças, atividade tolerada à época.

Os cavalos partiram como um raio, em correria desenfreada, a poeira fora intensa, durante todo trajeto quase não dava para enxergar quem estava montado neles.

Na linha de chegada ficaram dois homens de moral indiscutível — digamos que seriam os “auditores” —  seu Diodato de Militão, pedreiro de mão cheia e seu Cristino de Mané Sertão, seleiro dos bons, ambos muito respeitados pela população do lugar e da vizinhança.

Ocorre que os cavalos chegaram quase igual, talvez nem uma cabeça inteira tenha definido o vencedor. Mas os dois “auditores” não tiveram como afirmar qual dos cavalos fora o vencedor, afinal não dispunham de equipamentos para aferição e, por conseguinte, deram a corrida como empatada.

Após uma pequena reunião entres os "auditores" e os montadores, público deixado bem afastado para não atrapalhar, fora anunciado o resultado: nenhum dos cavalos venceu, pronto.

Não houve, entres os presentes, quem recorresse do resultado da corrida. Que viv'alma seria tão deselegante a ponto de questionar a lisura de Diodato e Cristino?

Todos de volta ao Povoado, apostas devolvidas, bebedeira pra lá, bebedeira pra cá, tudo bem resolvido, pelo menos era o que parecia.

Sol quase se pondo, resenha acalorada. Um afirmava que o cavalo Ventania era melhor que o cavalo Óleo Cru e do outro lado era retrucado com a afirmação que Óleo Cru, mesmo maltratado pelo trabalho, era melhor do que Ventania.

Por isso ou por aquilo, fora travada uma discussão boba entre dois jovens que estiveram presentes na linha de chegada dos cavalos.

Um deles afirmava que os dois “auditores” não deram a corrida ganha para o cavalo montado por Zé Prego porque era da fazenda de pobre e o outro, filho de um dos "auditores" que deram como empatada a corrida, tomou as dores do pai e dissera ao jovem empolgado que se respeitasse e respeitasse o pai dele.

Foi o bastante para a discussão evoluir para uma briga generalizada, com empurrões, tapas, correria, quebra de garrafas, etc e tal. O fato é que, Chico de Cosenza, passou a mão duma trava de porta e acertou a cabeça do filho de Mané Vagalume, que sangrou bastante, sendo socorrido e levado para cuidados médicos na cidade, porém não resistiu e morreu no dia seguinte.

Quando a guarnição de polícia chegou ao local o ofensor já havia se evadido e não foi possível lhe encontrar. A procura seguiu, tendo sido montada campana nos arredores da malhada onde ele morava durante uma semana inteira.

Soube-se depois que o coroné Arquilino dera guarida a Chico de Cosenza, por duas semanas, sem que ninguém soubesse o seu paradeiro, e depois fora a Delegacia de Polícia da Cidade apresentá-lo para prestar contas do seu ato à Justiça.

O Delegado de Polícia, Rubião de Braz, recebera o coroné, com alegria.

— Coroné Arquilino, o senhor por aqui é novidade. Em que posso lhe servir?

— Rubião, este menino fez uma besteira grande lá no Povoado, depois da corrida dos cavalos, como você deve estar sabendo; me chegou lá na Fazenda chorando e pediu pra não deixar prender ele porque ele não queria matar ninguém, apenas se defendeu depois de tomar um tapa na cara do pobre rapaz que morreu.

— Soldado Carinhanha, por favor, vá ali na casa do escrivão Zé de Itagiba e diga a ele pra vim cá pra gente tomar o depoimento desse rapaz.

Todos na sala do Delegado, que fazia as perguntas e o escrivão assentava o depoimento no papel colocado na máquina de escrever Olivetti Lettera 88.

Ao final, como Chico de Cosenza não sabia nem ler nem escrever, o coroné Arquilino fizera a leitura em voz alta e assinara a rôgo pelo acusado.

Inquérito encaminhado ao Ministério Público que denunciara Chico de Cosenza pedindo a sua prisão preventiva, imediatamente, sob alegação de que seria necessário, em face das razões apontadas no processo.

O Pretor da Comarca, imediatamente, decretou a prisão preventiva e enviara o mandado a Delegacia para cumprimento.

Destacamento reunido, foram escolhidos a dedo os praças para cumprimento, sob comando do Cabo, já que o Sargento havia viajado à Capital para tratar dos soldos do destacamento inteiro, visto não ter agência de banco nem Coletoria Estadual no município.

Como o acusado morava numa malhada distante da sede do município, era necessário conseguir montaria para chegarem até o endereço e efetuar a prisão determinada pelo Pretor.

Mapearam toda a viagem e a ação a ser empreendida, discutiram a forma de chegar: deixariam as montarias ao menos numa distância de duzentos a trezentos metros e chagariam a pé para não dar tempo do acusado se evadir.

Assim fizeram.

Chegaram ao terreiro da casa de Chico de Almerinda por volta das cinco horas da tarde, sol frio e já baixando para se pôr, escuridão querendo aparecer.

Ao comandante da patrulha, a maior patente entre todos — o Cabo —, caberia chamar à porta da casa e anunciar que seria a polícia e que queria falar com o morador.

Posicionados um praça aos fundos, um do lado direito e outro do lado esquerdo da casa.

O Cabo se dirigira à porta da casa e, neste momento, descera por uma das varas da parede de taipa, uma cobra jaracuçu medindo por volta de uns quarenta centímetros, pelo visto um filhote ainda.

Foi o bastante para o Cabo abandonar a missão e sair em disparada aos gritos de socorro, socorro, socorro. Na carreira que ia, saltara o passadiço da entrada da malhada dum pulo só e se alonjara no corredor afora em no mínimo umas cem a cento e vinte braças.

Os praças vieram em disparada para acudir o Cabo, pensando tratar-se de agressão por parte do procurado.

Qual não fora a decepação dos praças quando viram uma cobra se movendo lentamente no terreiro e avistaram o seu comandante, a mais de cento e vinte braças de distância, de arma em punho, fazendo menção de ir em direção a casa e depois retornava — eram dois passos pra frente e quatro passos pra trás.

O praça Pedro Bota Branca, esboçando um riso sarcástico, olhara para os colegas e pegando uma estaca na cerca, deu fim a pobre cobra, sem esconder a decepação com seu comandante.

— Mas cabo, o senhor com medo de uma cobrinha dessa, um filhote de jaracuçu que a gente nem sabe se já tem as presas?!

— Você se respeite e respeite seu comandante, praça. Sentido!

O cabo, ali mesmo no terreiro da casa de Chico de Consenza, pusera a patrulha em ordem unida e decretara, verbalmente, sigilo de trinta anos sobre o acontecido. E ai daquele que desse com a língua nos dentes, sofreria punição mandando anotar na ficha funcional uma cadeia de quinze dias. O decreto valia para qualquer um dos presentes que ousasse tornar público aquela situação vexatória.

O assunto só não ficou em sigilo porque o acusado, antes de fugir para São Paulo, fizera confidência a alguns amigos e estes espalharam o acontecido no terreiro de Chico de Cosenza, que, ao perceber a vinda dos policiais, se escondera quase no olho de uma mangueira de copa muito grande que tinha no quintal, deixando a casa vazia, mas vislumbrando todos os movimentos da guarnição policial.

Tonho do Paiaiá Salvador, 6 de abril de 2024

 

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