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Os gols e mais nada

  • Foto do escritor: Antonio Mário Bastos
    Antonio Mário Bastos
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Os gols e mais nada

 

Ao Dr Osiris Casto, ilustre fisioterapeuta e que esteve presente na partida de futebol como um dos mascotes do time do Farinha Boa Futebol Clube , a quem devo o estímulo de publicar este conto.

 

Estamos no lugarejo de nome Burras da Chica, muito bem conhecido regionalmente pela produção de derivados de mandioca: farinha, tapioca (fécula, povilho), puba(carimã), beiju, lelê e outras tantas iguarias que este tubérculo é capaz de oferecer a partir do seu processamento.

Antiga Casa de Farinha (@memorialdosertao)
Antiga Casa de Farinha (@memorialdosertao)

Por lá não se fala na famigerada maniçoba, iguaria preparada a partir de folhas jovens da planta da mandioca e fartamente conhecida da região do Recôncavo da Bahia.

A maioria dos rapazes, como não seria de ser diferente, tinha como principal lazer as peladas dos finais de tarde e os jogos de futebol aos domingos —muito mais sagrados que a missa do Padre Matusalém — estes disputados com seriedade e com trajes dignos de clubes da cidade-mãe ou até mesmo da Capital do Estado.

O time de futebol denominado Farinha Boa Futebol Clube era coordenado pelo vigário da Paróquia e composto, normalmente, por jovens que frequentavam a igreja local e participavam dos ritos que eram ali celebrados, além da constante conviência comunitária.

Já o time com a identificação de Futebol Clube da Mandioca, era mais mesclado. Além de jovens em ascensão esportiva, contava com pessoas já maduras, profissionais liberais, trabalhadores rurais, preparadores de farinha e outros derivados da mandioca. Consta que até mesmo o Vereador que representava e morava na comunidade era um dos atletas do time.

As disputas entre estes dois clubes de futebol eram ferrenhas e acompanhadas de resenhas, pós treinos ou pós jogos, o que movimentava a convivência entre as pessoas do lugar. Havia momentos de discussões calorosas, mas sem nenhum registro de agressão de qualquer ordem.

Como ocorre no futebol, sempre há convites a times de outras localidades para enfrentamento em seu próprio campo ou mesmo deslocamento para pagar a visita, etc. e tal.

Quando este enfrentamento futebolístico iria ocorrer, era natural que houvesse enxerto de um ou do outro time, tomando emprestado jogadores para reforçar o elenco do time que disputaria contra times de outras localidades — coisa normal, era como se fosse uma convocação da seleção de futebol do lugar.

Era tempo de o vigário da Paróquia viajar para reunião com o Bispo da Diocese, como o fez. Lá se encontrou com padres de outras Paróquias que também coordenavam times, ou gostavam do esporte ou até mesmo jogavam futebol, como era o caso do vigário da Paróquia da localidade de Serra da Jaca Mole.

Conversa vai, conversa vem, o Padre Matusalém falava com os olhos cheio de orgulho e alegria do time que coordenava, da participação dos jovens nos atos da igreja, das conquistas de troféus.

Ouvindo atento ao que o seu colega de ministério religioso tanto enaltecia, o Frei Batata, vigário da Paróquia de Serra da Jaca Mole, lançou um desafio:

— leve seu time pra lá que é pra gente saber se é tudo isso que você diz, Matusalém. Sei que você é perna de pau, não joga, mas eu jogo e garanto pelo meu time. Quer marcar uma data? Eu lhe dou um bom tempo até você conversar com seus jogadores.

— Você me pegou de surpresa, Frei Batata, mas vou reunir a comunidade e ver com todos se é melhor o seu time ir primeiro lá pra Burras da Chica. Nossa comunidade é pobre e não tem recursos para alugar transporte para levar o time e seus torcedores.

— Não seja por isso, Matusalém, eu tenho bom relacionamento com o Prefeito do Município e vou pedir a ele para oferecer condições de levar meu time e quem mais quiser ir para sua Paróquia e a gente marca a data do jogo de futebol. Não tem problema nenhum, eu vou primeiro, depois vocês pagam a visita a gente.

O Padre Matusalém, de retorno à Paróquia, na missa do domingo, após a homilia e quando dos comunicados fez ver à comunidade do desafio que o Frei Batata tinha feito ao time de futebol da localidade.

Foi marcada uma reunião à noite, na Igreja, e a comunidade compareceu quase que na totalidade.

Decisão: podia marcar o jogo para uma data dali a trinta ou quarenta dias.

Seria alugada a empanada do circo que estava armado na Cidade-mãe para cercar o campo com a finalidade de cobrar ingresso de quem quisesse assistir ao jogo, para assim angariar recursos e conseguir contratar transporte para pagar a visita do time da Serra da Jaca Mole.

Circo envandrare-circus-tent-6713616_1920
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Como o time do Farinha Boa era basicamente de jovens, inexperientes por seu turno, foi pedido emprestado dez jogadores do Mandioca, entre titulares e reservas, formando um plantel de vinte e dois atletas.

Entre os atletas do Mandioca havia um atleta considerado o maior goleador do lugar. Homem trabalhador, dedicado aos serviços de vaqueiro da Fazenda Boa União, que ficava distante duas léguas do lugarejo. Seu nome era Tasso,

pessoa de conduta séria, porém era apreciador de uma pinga de garrafa com infusão de cascas ou raízes de árvores e um tanto irreverente. Não era de aceitar reclamações de colegas nem do técnico do time.

O time que representaria o lugarejo seria o Farinha Boa, afinal quem conseguiu que o jogo fosse realizado foi o vigário. Mas houve uma reclamação na comunidade e exigiram que a camisa a ser usada não seria de nenhum dos dois times do lugar.

O Padre Matusalém, durante os comunicados na missa, conclamou a todos que se unissem para arrecadar fundos para as despesas do jogo.

— Meus paroquianos, meus senhores e minhas senhoras. Fazendeiros, trabalhadores, costureiras, políticos, etc., é momento de arrecadarmos recursos para aluguel da empanada do circo — o dono quer cinquenta por cento de adiantamento no dia de ir buscar para instalar e o restante após o jogo — e para comprar um uniforme para este e outros jogos quando for o lugarejo que seja representado, aqui ou fora daqui.

A dedicação de comunidade foi exemplar. Foi arrecadado dinheiro suficiente para comprar um jogo de camisas de futebol para vinte e dois atletas, seis mascotes, um massagista, um preparador físico e, obviamente, o técnico — Padre Matuzalém.

Desnecessário dizer que houve uma série de treinamentos com vistas ao jogo de acolhida ao visitante. Trouxeram até o treinador do time de futebol profissional da cidade-mãe para orientar alguns treinamentos.

É chegado o dia do jogo. Lugarejo em ebulição. Fila para compra dos ingressos — não houve venda antecipada — compareceu gente de tudo quanto foi lugarejo vizinho e até da cidade-mãe. Ficou convencionado que não seria cobrado ingresso dos torcedores do time visitante.

Jogo iniciado, sem a presença de Tasso. Foi um murmurinho só. Que teria acontecido?

— Bota Zé Grilo no lugar dele Padre, quando ele chegar faz a substituição, disse o Vereador do lugar.

— Tudo bem, tudo bem. Mas é preciso tomar cuidado com o camisa oito deles, o Frei Batata. Joga muito e bota a bola no lugar que quer. Todo cuidado é pouco; ele é rápido e chuta forte.

Bola rolando sem novidades; os times estudando as jogadas um do outro. Descuido do Mandioca o time do Jaca Mole faz um a zero. Gol do Frei Batata.

O zagueiro do Mandioca derrubou o centro avante do Jaca Mole na área. Pênalti, marcou o árbitro. Dois a zero para os visitantes.

Termina o primeiro tempo e nada de Tasso aparecer.

Retomada a partida, já aos dez minutos do segundo tempo, aparece Tasso pedalando sua bicicleta Monark barra circular, sem demonstrar nenhuma pressa. Correram muitos ao seu encontro, inclusive o Vereador que foi logo vociferando.

— Você não tem juízo não rapaz? Tasso você esqueceu que o jogo era hoje, foi? Nós estamos perdendo é de dois a zero. O time deles é bom e o tal do Frei Batata é o cérebro do time. Você vai jogar ou não vai?

— Então espere aí que vou aqui no boteco de Zé Oreinha tomar uma dose de umburana de cheiro e chego já.

— Não faça isso rapaz, você quer arruinar o time do nosso lugarejo? Ainda vai beber cachaça para entrar pra jogar? Isso não tá certo rapaz.

Foi num vapt-vupt.

— Segure aqui minha bicicleta. Me dê a camisa e o calção que vou me vestir. Já estou calçado com as minhas chuteiras.

— Anda logo Tasso, você tá desfalcando o time e fazendo a gente perder o jogo, e, ainda por cima, foi beber antes de entrar em campo, isto é um pecado imperdoável, disse de lá o Padre Matuzalém.

— Olha só seu vigário. Vou entrar, vou fazer dois gols e saio de campo. Ninguém me peça que não fico um minuto só a mais; nem minha mãe se viva fosse e me pedisse eu não atendia. Vou deixar a partida empatada e vocês com seus jogadores que cuidem de fazerem o gol da vitória, se conseguirem.

Tasso entrou em campo aos quinze minutos do segundo tempo. Aos vinte marcou o primeiro gol e aos trinta minutos já havia feito o segundo gol.

Tirou a camisa para comemorar e disse em voz alta: os gols e mais nada!

Em seguida saiu de campo, pegou sua bicicleta e não voltou mais. Tonho do Paiaiá, voltando a escrever

 
 
 

1 comentário

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Hayton Rocha
Hayton Rocha
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Texto simplesmente excepcional, meu caro! Além de uma narrativa primorosa, com fortes nuances cinematográficas e uma linguagem autêntica, visceral, o desfecho é arrebatador. É como se o craque boêmio provasse ao mundo que, mais importante do que vencer ou perder, é fazer com excelência aquilo que está ao nosso alcance. Aquilo que pode e deve ser feito.

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