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  • Antonio Mário Bastos

Sertão, vivi e sonhei (provisório)

A migração interiorana em direção aos grandes centros urbanos estava em crescimento naquela década, época do pós guerra. Daquele distrito saia uma leva de pais de família saudosos e moços descompromissados, todos em busca de dias melhores. Espremidos em caminhões pau-de-arara, sonhando com oportunidades de trabalho para o sustento

da família ou para amealhar um pé-de-meia, passava pela cabeça d’alguns deles até mesmo o sonho de cursos escolares mais avançados que os existentes até então, ali e na imensa maioria dos municípios brasileiros.

Esses migrantes – apelidados retirantes - se despediam do seu torrão natal entre lágrimas, cânticos, bravatas e promessas de “um dia voltarei e levo vocês todos comigo”. Era esse o retrato daquele sertão nordestino, como nos demais outros sertões.

O “coronelismo” político-econômico imperava. Os postos de trabalho, predominantemente braçais e destinados à atividade agrícola, eram poucos e a remuneração oferecida sofrível - um quase nada mesmo - mal dava, quando dava, para fazer a feira de mantimentos para a família durante uma semana.

De início o chefe de família se deslocava para os grandes centros empregadores, na Bahia o polo cacaueiro, região sul - representado pelas cidades de Ilhéus e Itabuna, consideradas capitais do interior dada a pujança econômica, até mesmo cultural - e as capitais dos Estados mais desenvolvidos.

As capitais mais procuradas eram a Guanabara, por ser a capital nacional e São Paulo. Estas cidades estavam em franca transição do modelo de economia predominantemente agrícola para a industrial que crescia a passos largos.

O menino Escolástico nascera numa família mediana e de poucos irmãos, ele um dos primeiros a vir ao mundo. Morava na zona urbana de seu distrito, distante dos grandes centros produtores, labutava na lavoura junto com seu pai e irmãos e frequentava regularmente a escola, essa de classe multisseriada, única oferecida naquele torrão sertanejo.

Seus pais, pessoas de posses mediana, tinham capacidade de suprir a mantença da família sem maiores dificuldades, senão as normais vivenciadas naquela região incrustada no polígono das secas.

O varão, seu Zeca do Lotero, era um homem de poucas letras, forte, bem afeiçoado e dedicado ao plantio de lavoura de invernada, fazia cultivo de uma pequena área de brejo para plantio de cana-de-açúcar - não mais que quatro vinte e cinco, contendo umas trinta leiras – utilizada para o feitio de mel de engenho e rapadura, produtos que dominavam o comércio local e na feira livre daquele lugar.

A matriarca, conhecida como dona Zefa do Recanto, pessoa alegre, agregadora, coração acolhedor e referencial na família originária. Uma mulher de muitas prendas e bem dotada de conhecimentos gerais, funcionária do Governo no atendimento ao povo do lugar em serviços públicos não essenciais, porém necessários. Durante um longo período do ano o serviço da repartição era quase nulo no que a dona Zefa aproveitava para bordar e fazer crochê por encomenda com a finalidade de reforçar a sua renda mensal; não era das melhores, porém certinha todo mês, e, por isso, ela era a maior supridora da mantença da casa e da educação dos filhos.

Escolástico e seus irmãos, laboravam nas terras com o pai e tinham tarefas definidas, todas executadas sob a sua supervisão, posto que a mãe dava expediente na Repartição pela manhã e pela tarde.

Além de cumprir com suas obrigações na roça, fora do período das aulas eles também cuidavam de abastecer a casa da família, duas vezes na semana, de água para o uso diário e para beber e, semanalmente, de lenha para cozinhar os alimentos.

No dia reservado a essas atividades nenhum deles executava trabalhos na roça. Era dispensado desse esforço braçal para reserva-lo ao trabalho de aguadeiro doméstico ou de tirador de lenha na caatinga.

Obedeciam a um ritual invariável: chegavam da escola............ (Imagem obtida no Google, via internet)

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