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  • Antonio Mário Bastos

Seo Vereador, vosmecê tem o protocolo? Pergunta o eleitor

Atualizado: 19 de Jul de 2020


Era o ano de 1954. Haveria Eleições Municipais livres no Brasil, já democratizado e após a morte do seu Presidente, Getúlio Dornelles Vargas que, embora tenha sido ditador no período de 1930/1945, se elegera democraticamente em 1950.

O município de Nova Soure, na Bahia, elegera, em primeiro mandato,

um jovem Cirurgião Dentista, Dr Emmanoel Ferreira da Silva – o caçula do clã dos Ferreira – para dirigir os seus destinos na legislatura 1955/1959 – naquele tempo a transmissão do cargo ocorria no mês de fevereiro.


Como qualquer município de pequeno porte, tal qual o nosso, os Vereadores seriam eleitos apenas na condição, digamos assim, de título honorífico, embora investidos no múnus de legislar e no ônus de servir. Não havia remuneração para o exercício do mandato, a eles confiado pela sociedade. Dr Manelito, assim amistosa e carinhosamente tratado pelos seus munícipes, era irmão do primeiro prefeito eleito democraticamente em Nova Soure, José Ferreira da Silva – Seo Juca ou simplesmente Seo Juquinha.

Dr Manelito, iniciante em administração pública, sucedendo ao prefeito Ramiro Vieira, homem nascido no Junco, antes "Maiada da Pedra", hoje Sátiro Dias, que fizera uma administração elogiável e em continuação ao que iniciara Seo Juquinha, cuidara de organizar os serviços públicos do nosso município, bem ao seu jeito de agir – com parcimônia, com atenção e com educação ímpar, aliás marcante na sua alma de homem e amigo.

Contam que entre os Edís, eleitos naquela legislatura, estava um senhor de moral ilibadíssima, homem cordato, próspero – de poucas letras, mas de uma inteligência invejável – que representava um dos Povoados existentes naquela época.

Além de ser um fiel escudeiro e defensor no Prefeito eleito, o assessorava nas questões do trato com a terra, na lida com o rebanho e na manutenção dos serviços da fazenda do alcaide. Para os moradores daquele povoado e da região circunvizinha fora uma vitória dobrada, elegera o candidato a Prefeito e, de quebra, um seu representante na Câmara Municipal, um Vereador “da gema” como se diz.

E não foi um mero vereador; foi um vereador com fácil acesso ao prefeito e com raízes muito fortes de trabalho e amizade – foi, como popularmente se consideram nesses casos, “a sopa no mel”! Administração iniciada, o prefeito Manelito não descansava. Projetara e começara a executar a reurbanização da Praça Nossa Senhora da Conceição – a principal da cidade – e, delegara aos vereadores dos povoados que lhe trouxessem as reinvindicações das suas comunidades, ouvidos os habitantes evidente e independentemente de preferência partidária desses.

Os pedidos eram levados ao Vereador, geralmente nos dias de feira livre e, consequentemente, as cobranças para que fossem realizados:

  1. “seo vereador, o tanque da Pimenteira Salgada tá que é lama só; precisa de limpar antes que a chuva chegue” – e o bordão ecoava no ambiente da feira livre: “já requeri ao prefeito, meu fio

  2. “seo vereador, aqui tá precisando de um curral de matança porquê a feira tá crescendo e vai ter que matar mais gado” – novamente a resposta pronta: “já requeri ao prefeito, meu fio

Os pedidos se avolumavam e o prefeito não tinha conhecimento deles, óbvio. O vereador não queria “incomodar o hômi com coisa pouca”.

As respostas, sempre prontas e sempre as mesmas - o velho bordão, já requeri... - pareciam já não mais convencerem aos interessados. Mas o vereador era uma pessoa tida na mais alta conta; um homem digno e respeitado; uma referência entre os moradores daquela região; quem se arvoraria em questioná-lo em desacordo?

Ninguém, claro que ninguém. Mas nunca se sabe; um belo dia alguém iria perder a cerimônia e ser mais incisivo.

Aqui acolá era esperado o momento de se saber qual a decisão do prefeito em relação aos pleitos dos eleitores.

E não estava longe de acontecer. No mês vindouro estaria sendo realizada a romaria religiosa em louvor à padroeira do povoado e o senhor prefeito havia de estar presente.

Aí era fácil, fácil. Bastava alguém se aproximar e perguntar ao prefeito quando seria limpado o tanque da Pimenteira Salgada ou roçado o corredor da Ribanceira de Baixo. Lá um belo dia, no barracão onde se realizava a feira livre, estavam algumas pessoas numa conversa bem amistosa e alegre; as risadas dobravam.

Entre esses palestrantes informais estava o vereador cumprimentando um e outro: quem passava, quem chegava quem saia. Zeca Bico Largo, um dos reivindicantes dos serviços apontados, tinha acabado de chegar para fazer a feira. Arriou o boca-pio na banca de carne de João Quarto Doce, se integrou à roda de conversa.

Lá pelas tantas, Zeca se dirigira ao vereador lança a pergunta a todos pulmões: “seu vereador, o prefeito já mandou limpar o corredor da Ribanceira de Baixo? É porquê daqui três semanas tem a romaria do padre e minha famía qué vim pra cá. Do jeito que tá aquela veredinha de nada o carro de boi num vai passar”. A clássica e conhecida resposta, o velho bordão, “já requeri ao prefeito, meu fio” soou em alto e bom som. Assim de lado, como quem não quer nada, escutando toda a prosa e atento ao que ali se conversava, um rapazinho franzino, na casa dos seus vinte anos, se dirige ao vereador e lança a pergunta que antes ninguém tivera a coragem de fazer: “seo vereador, vosmecê tem o protocolo deste pedido?".

Num sabe, todo domingo eu fico por aqui espiando essas conversas e escuto o senhor dizendo aos eleitores ‘já requeri ao prefeito, meu fio’.

Vem o outro domingo a mesma queixa é feita ao senhor; a resposta é a mesma e, ao que parece, nenhum serviço foi feito ainda”. Todos ficaram assombrados! Era um entreolhar e um ti ti ti sem tamanho.

Elocubrações de todos os gostos passaram pelas mentes daqueles palestrantes.

Quem seria este rapazinho atrevido, ousando fazer uma pergunta daquelas ao vereador?!

Seria um “pau mandado” da oposição?!

Será que é de fora – num é daqui e veio atazanar o juízo do vereador?!

Silêncio total.

Fôlegos presos e à espera de uma reação dura e esbravejante do vereador, assim se portaram os presentes na roda de conversa. Mas o vereador, sério e respeitado como sempre o foi, não perdeu sua condição de formador de opinião e de elo entre a comunidade e o prefeito.

Não podia revelar a real situação do encaminhamento das reinvindicações – isto comprometeria seriamente sua carreira política e a do prefeito, seu aliado. Com parcimônia e em tom apaziguador, passara a mão na cabeça do jovem perguntante e lhe respondera: “é o máli meu fio, é o máli. Foi tudo bocoriamente”.

Tonho do Paiaiá entre o Dia de São José e o início do outono de 2016. Causos da vida política em um povoado – não se faz referências nominais às localidades e a algumas pessoas, em respeito a cada uma delas e suas famílias, também para não dar margem a pretensas e equivocadas identificações.

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