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  • Antonio Mário Bastos

Que água é essa, rapaz...?!

Nasceu na roça, cresceu na roça, trabalhou na roça. Estudou pouco na escola da rua, onde outros rapazes estudavam; sequer completara o curso primário.

Retornara do curral, junto com o pai, trazendo o leite e entregara o vaso a sua mãe na cozinha da casa.

— Bença mamãe. Mamãe, hoje a vaca sibirina deu pouco leite; desinteirou o de fazer a coalhada.

— Deus lhe faça feliz, meu filho! Não tem problema não; eu diminuo o leite que vai para a comadre Zabé Bom-pisar e deixo uma parte pra fazer sua coalhada.

Fizera um sinal com a mão chamando o pai que estava no terreiro pitando um cigarro de palha e se dirigiram ao oitão da casa.

— Papai, queria falar com o senhor uma coisa muito séria.

— Que se passa com você, Novato meu filho; que diabos você andou aprontando na rua da Natuba?

— Né nada de briga não, papai. É que estou pensando em ir embora daqui.

— Mas meu filho, aqui não falta nada para você, tem o que comer, tem onde dormir, tem uma montaria quando quer ir pras festas, pras rezas, pra tudo quanto é fuzaca e tudo mais. Será que é porque você me ajuda na lida da roça para plantar no inverno, cuidar das criações e do plantio de cana e banana no nosso brejinho? Será, Novato, será?!

— Não papai. Não é isso não. Eu quero ir pra São Paulo para ganhar a vida, fazer meu pé-de-meia e um dia voltar pra comprar minha terrinha só minha. Não que eu esteja insatisfeito em trabalhar com o senhor e meus irmãos, não é isso; é que me deu na telha de ir procurar melhoria de vida.

Como todo sertanejo, o seu sonho era ir para São Paulo, ganhar a vida, fazer seu pé-de-meia, prosperar e voltar para comprar sua própria roça. A roça de seus pais não era tão grande assim e sabia que sua parte numa futura herança não passava de poucas tarefas de terras secas e poucas braças de brejo, umas três cabeças de gado bovino, de seis a oito de ovinos e, no máximo, um jegue de trabalho com cangalha e os arreios possíveis.

— Então você espere aí que vou chamar sua mãe para ela escutar da sua própria boca o que você tem a dizer sobre essa doidice. Ô Miquilina, ô Miquilina, vem cá muié; vem assuntar o que seu filho Novato tá estuciando aqui!

— O que tá sucedendo, Macedônio meu marido?! Que miséria é que esse menino tá aprontando, logo numa hora dessas que eu estou aqui torrando meu café com rapadura, misturado com fedegoso para render mais e chegar até o fim do mês?!

— Miquilina, esse menino tá com umas ideias de doido, num sabe; tá querendo ir embora pra São Paulo, você já assuntou uma coisa dessa?

— Novato, meu filho, diga pra sua mãe aqui, mas diga com a mais pura verdade, como é puro o manto de Nossa Senhora da Conceição, o que foi que distriou a sua vida assim, meu filho, pra você querer largar a gente aqui, seus irmãos, seus primos e se mandar nesse oco de mundo, aventurando a vida?

— Espere aí mamãe; não tem nada de distriar não mamãe! Eu já sou de maior, já tirei meus documentos lá na Prefeitura, tenho vontade de trabalhar e arranjar dinheiro pra ter minhas próprias coisas. É só isso, mamãe!

Apois então meu filho, se é esse o seu plano eu abençoo sua vontade, e, chegue aqui mais pra perto da gente Macedônio, seu pai também haverá de abençoar.

— É claro que abençoo. Com o coração partido, com o juízo fervendo, com a saudade já desde agora, mas abençoo o que for melhor pra você, meu filho.

— Sim mamãe, sim papai. Eu agradeço a vocês por terem me compreendido e me abençoado.

— E você, menino, vá logo cuidando de procurar quando tem transporte pra lá. Eu soube, istur dia, que o marido da menina de comadre Eremita, prima da gente, está fazendo lotação pra São Paulo no caminhão pau-de-arara

de Quinha do Paiaiá e o motorista é aquele menino filho de compadre Sálvio e comadre Zazá. Procure eles para saber que dia sai a lotação.

A cidade de São Paulo, naquele tempo, era o principal centro acolhedor de trabalhadores. O progresso, principalmente da industrialização, era muito grande, as oportunidades de emprego estavam à farta.

Novato soubera de tudo isso por via do seu primo Tibúrcio, que viera visitar os pais. Seu primo, além de ter lhe aconselhado, lhe convidou a ir com ele para tentar a vida naquela grande cidade. Não era difícil deduzir que a reviravolta na sua cabeça começara a partir daquele dia.

Não viajara com Tibúrcio. Não havia tempo de vender, até o dia da volta do seu primo, umas criações, umas galinhas, uns cachos de bananas e umas leiras de cana para apurar não só o dinheiro da viagem, como também um pouco mais para seu sustento enquanto não conseguisse uma colocação em São Paulo. Além do mais, tinha que matutar como daria a notícia de sua decisão a Macedônio e Miquilina.

Após ter conseguido a benção e o consentimento dos seus pais para empreender a viagem tão desejada, providenciara se desfazer dos seus pertences, como planejado. Vendera quase tudo; só não vendera o jegue, de nome Brincadeira, a sela riachão e os arreios — deixara aos cuidados de seu irmão, para uso e guarda —; vá lá que voltasse de férias, depois de uns três a quatro anos, teria sua montaria para ir e vir para a rua da Natuba, para a missa, para farrear e até fazer serenatas, como dantes.

Viagem empreendida, levando consigo uma boa quantidade de dinheiro, após ter feito pagamento de metade da passagem antecipadamente. O restante da passagem teria que ser pago quando chegasse no Estado de Minas. Quem não pagasse lá mesmo ficava. Não tinha essa de pago depois não. Se o viajante não garantisse o pagamento nem subisse no caminhão, aquela era a regra para qualquer lotação na época.

Chegara a São Paulo, no Largo da Concórdia, bairro do Brás, ponto tradicional de desembarque de lotações oriundas do Norte, num domingo ensolarado, por volta das dez horas da manhã, depois de dezessete dias de viagem.

Alguns com endereço escrito num papel para chamar um carro de praça, outros com parentes e amigos à sua espera, como foi o seu caso; Tibúrcio estava lá a lhe esperar, como ficara combinado na carta que lhe escrevera, além de no dia da partida das terras da Natuba ter enviado telegrama: “Lotação saindo chega dezessete dias viagem. Abraço Novato”. Tivera sorte, não ocorrera nenhum atraso.

A primeira semana em solo paulista foi para visitar os parentes, conterrâneos e amigos que já moravam lá e, também, tentar obter informações sobre trabalho.

Na segunda semana já houvera conseguido uma colocação numa fábrica, por indicação de João de Ziquinha, seu companheiro de serestas na Natuba, que já morava e trabalhava lá há mais de cinco anos. Chão de fábrica mesmo, pegar no pesado, no começo.

Novato continuara naquela fábrica por três anos, de serviçal de chão de fábrica progredira até chegar a soldador. Depois disso tivera convite para outras fábricas, sempre galgando postos melhores até chegar a supervisor da linha de produção onde estava alocado.

Passaram-se mais de cinco anos sem voltar ao seu lugar. Depois disso, viera visitar seus pais e, nessa viagem, reatara um antigo namoro. Uma moça formosa, ficando o pedido de noivado a cargo de seu pai, dado que não podia fazê-lo pessoalmente, devido a distância e por não ter conseguido férias para retorno à sua terra natal. A aliança da noiva fora enviada ao seu pai pelos Correios. Era seguro, naquela época, enviar valores e joias.

Ao cabo de dois anos de noivado retornara à Natuba para o casório — um festão!

Passados mais alguns anos, agora casado e já bem-sucedido, resolvera que era momento de retornar para sua amada Natuba. Assim fizera. Chegara e comprara sua própria terra — com a qual sempre sonhara —, adquirira também uma casa na rua da cidade, próximo do centro comercial e se estabelecera comerciando animais e grãos.

Pela sua movimentação de dinheiro era disputado e afagado pelas gerências das três agências bancárias do lugar: a do banco pertencente ao Estado; a do banco pertencente à Nação e a do banco pertencente a uma família tradicional da Bahia.

Estávamos na era da evolução das coisas, da modernidade — década de 70 do século passado — e as novidades eram imensas. Meios de comunicação se agigantando, era telex, telefone com chamadas DDD, fax e outras coisas mais. Os modelos de automóveis eram cada um mais cobiçado que o outro; a seleção brasileira de futebol havia conquistado o tricampeonato mundial; a televisão havia chegado àquele lugar — primeiro por meio de um aparelho de TV para acesso ao público,

instalado pela prefeitura em frente da matriz católica, depois com torre de captação de sinal do maior canal de televisão do Estado, acessível a quem pudesse adquirir seu aparelho de TV.

Lá um certo dia, na verdade uma sexta-feira, aparece um vendedor de coisas novas visitando a prefeitura, as repartições públicas, os escritórios de empresas e as agências bancárias, oferecendo a seus administradores a novidade: ozonizador de água potável.

Utilizava de um discurso bem decorado.

— Olhe só, o aparelho ozonizador, além da facilidade de pegar a água para beber, é a certeza de garantia da saúde das pessoas, pois afasta verminoses e bactérias outras.

E o vendedor usava seu bordão de convencimento.

— É também obrigação do senhor, seu prefeito, seu gerente, cuidar da saúde dos seus funcionários e clientes.

O vendedor visitara todos os bancos nessa cruzada de vendas.

O gerente do Banco do Brasil, muito espirituoso e amigo do seu cliente Novato, tivera uma ideia. Saíra à porta do banco, já determinado a tanto, avistara o seu cliente especial em pé, sem usar camisa, a bater papo com duas ou três pessoas na frente de sua casa. Chamara o vendedor de novidades e, apontando para a casa do cliente, lhe dissera com bastante seriedade.

— Vendedor, você está vendo aquele senhor ali, sem camisa, em frente de casa e conversando com aquelas pessoas?

— Estou vendo sim, seu gerente. Não é aquele mais alto de todos?

— Justamente. Pode ir lá oferecer a ele que, com absoluta certeza, ela compra; já morou em São Paulo e conhece todas essas modernagens. Pode dizer a ele que fui eu, o gerente, que mandou você ir lá.

O vendedor, alegre pela indicação e apostando na venda certa, se dirigira, todo saltitante, ao local onde estava o indicado.

— Bom dia senhores! Quem é seu Novato aqui?

— Pronto amizade, está falando com ele. Posso saber com quem eu estou falando e a que veio, por favor? Eu nunca vi o senhor por aqui...

— Eu vim aqui que o gerente do Banco do Brasil me mandou para lhe oferecer este ozonizador de água. Ele até me disse que o senhor é um homem conhecedor das coisas, já morou em São Paulo e ia comprar com certeza.


— Seu moço, eu sou um homem respeitador e não me meto com malandragens não, viu! É bom mesmo o senhor se respeitar e ir falando sério comigo, tá ouvindo? Não sou homem de brincadeira maldosa não.

— Seu Novato, este é um aparelho ozonizador e o senhor e sua família vão poder beber água ozonizada, livre de verminoses e bactérias, o que é muito bom para a saúde de todos.

— Mais rapaz.....! Eu morei em São Paulo foi mais de vinte anos, trabalhei desde o chão de fábrica até supervisão, conheço tudo quanto é tipo de água: água mineral — com gás e sem gás —, água velva para queimar a barba, água sanitária para limpeza das coisas, água tônica pra gente beber com bacardi, água de colônia pra gente se perfumar, água oxigenada pra gente limpar feridas, água de cheiro usada em terreiro de bembé e outras águas mais. Sempre bebi água da fonte do brejo de meu pai e nunca tive nada de verme não; sou limpo por dentro e por fora.

E agora me aparece aqui o senhor, com esse lero-lero de vendedor, pensando que está tratando com gente besta, com qualquer tabaréu, e, sem nenhuma cerimônia, vem com essa tal dessa água ai, sei lá o quê?! Puxe daqui e vá vender sua água no quinto dos infernos, cabra safado.

Ô Julieta, me traz aí o meu collinos vinte e duas. Ligeiro; ligeiro mulher, que eu quero mostrar a esse desassuntado como é que se respeita homem de bem.


O vendedor, quando ouviu falar em vinte e duas, associou a arma de fogo calibre vinte dois, deu uma carreira tamanha, e, dum fôlego só, adentrou a agência do banco com a língua de fora, quase em estado de ataque de nervos.

— Seu gerente, que homem é aquele, seu gerente?! O senhor me disse que ele ia comprar, que conhecia as modernagens, etc. e tal, e, quando falei na água ozonizada quase que apanho. Saí de lá enxotado, estou aqui esbaforido de tanto correr.

Dias depois, Novato fora ao banco fazer depósito da féria apurada na feira livre.

— O gerente viera recebê-lo quase que na porta. Afinal, tratava-se de um cliente especial; estava entre os três maiores da agência, considerando-se a classe de clientes pessoa física.

— Bom dia seu Novato, como vai o senhor; como vai a família; como vão os negócios?

— Bom dia seu Tião, está tudo indo muito bem graças a Nossa Senhora da Conceição. Mas, me diga uma coisa, que diabos de tralha foi aquela que o senhor mandou um cabra da capital ir lá em minha casa me vender?

— Veja bem, seu Novato, aquele rapaz chegou aqui me pedindo que indicasse pessoas que tinham condições de comprar aparelho para purificar água potável e eu indiquei o seu nome e de outros clientes daqui do banco. Houve algum problema?

O gerente estava a par de todo o acontecido, mas fingiu desconhecer. Achou melhor não ficar em má situação perante seu cliente especial.

— Meu distinto, eu só não dei umas panadas de facão naquele desassuntado porque ele correu que nem um preá fugindo de cobra. Ai s’eu pego aquele safado, ai seu pego, seu Tião! Eu ia mostrar a ele como se dança o tango argentino, o samba de treita e o sapeca aiá, que é pra ele aprender a respeitar homem de bem e ainda por cima na porta de casa.

— Mas não me diga, seu Novato! Ele desrespeitou o senhor, foi?! O que foi de tão grave e desrespeitoso que aquele rapaz disse ao senhor?!

— Aquele atrevido veio com uma história de uma tal de água diferente lá, que era boa, espantava os vermes e as bactérias. Então você não tá vendo que não vou acreditar nessas modernagens, principalmente quando a bandidagem tá solta aí por esse mundão de meu Deus?!.

Terminada a demorada conversa, depositados os capitais, já passava do meio-dia. Ora bolas, era uma sexta-feira, dia ensolarado. O gerente convidara o cliente a irem tomar uns drinks no SPA a céu aberto do Sargento.

Entre drinks e tira-gostos variados, a conversa fluía animada. Chegavam amigos de ambos, clientes do SPA, entre eles os gerentes das outras duas instituições financeiras, o Charles e o Ned, já conhecedores do acontecido, por via de relato do Tião.

Charles, em tom sério e demonstrando preocupação, se dirigira a seu também cliente.

— Seu Novato, tive sabendo que um rapaz da capital, vendedor de uns tais de aparelhos modernos, andou lhe desrespeitando? É verdade?

— Rapaz, nem me fale, viu. Chegou lá um desassuntado, dizendo que seu Tião tinha mandado ele lá e coisa e tal. E num é que o cabra safado me veio com uma proposta sem pé nem cabeça – feia mesmo, viu —, afrontosa a qualquer homem de bem, que nem nós?

— E o que foi isso então seu Novato? Do que foi que ele lhe falou de tão desrespeitoso?

— Me veio com uma história estrambólica, querendo me vender uma tal de água diferente que ele lá falou. Então vocês acham que eu sou homem de beber essa tal de água horrorizada?!

Homem respeitado como era seu Novato, ninguém se atrevera, naquele momento, a esboçar um riso ou sequer quebrar o canto da boca.

Tonho do Paiaiá®

tonhodopaiaia.org

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