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  • Antonio Mário Bastos

Não duvide, cabe um jegue numa sanfona.

Atualizado: 26 de Set de 2020

Olha seu moço não lhe digo nada, viu!

Vamicê tá pensando que é invenção minha é?

Apois né não!

Este acontecido se passou lá no vilarejo do Seremão, zona rural do município de Nova Soure, Estado da Bahia, nas proximidades, ou talvez limites com as terras do Paiaiá.

Escutei relato fiel, sem arrudeios e sem prosa, de Elísio de Quintino de Prima, carpina de marca maior, homem de uma quietude tamanha que chega ao ponto d’a gente não acreditar na sua verve anedotária.

E assim se o causo se deu.

Era um fim de tarde frienta, inverno primoroso e todos se dirigiam para às suas casas, após a lida diária de limpa das lavouras de feijão, milho, batata e abóbora.

O ponto de encontro era sempre o buteco de Zé Oreinha,

às margens da estrada vicinal que sai da BR-110 com destino ao Cabeleiro, Melancia, Bela Vista, Rio Fundo e outras povoações de lá da velha Natuba.

Zé Oreinha ficara cego das vistas, por conta da diabetes. Mas, embora sem enxergar comerciava produtos na sua venda, principalmente aquela velha, desejada e conhecida pinga (cachaça vinda do Estado de Sergipe).

Para servir pinga aos seus fregueses ele pegava um copo de extrato de tomate, colocava o dedo indicador dentro, na posição vertical, e fazia pergunta ao fregûes da vez: vamicê quer uma cheia ou uma meiota?”

Se o freguês desejava uma meiota ela parava de colocar o líquido quando este alcançava a falanginha (falange média). Mas se o desejo fosse uma cheia deixava que a cachaça chegasse até a o final da falange (falange próxima).

Naqueles encontros se falava de tudo, era uma disse me disse retado; uma fuxicada dos diabos: de muié prenha a cabra safado; de gente ganhando peruca de touro e o escambau; até de política e de maus-feitos de muita gente grande, também. Era uma verdadeira resenha.

Mas o acontecido foi bem numa sexta-feira do mês do junho, com o sol já quase se pondo. Estava quase na rabeira da festa de São João; faltavam uns quinze dias, se muito, pra festa dos licores, das canjicas, dos bolos, dos fogos e, claro, do indispensável forró.

O primeiro a chegar foi o Bigode – Zito de Quintino de Prima – na sua bicicleta monark, barra circular, ano 1968 e em perfeito estado de conservação.

Todos clamavam por um forró no dia de São João – forró dos bons, como adjetivava o Zé Coco de Carlito de Jovino.

“Pra que esse negócio de tá indo pra rua, pra’quele tále de apoteose e ainda tendo que pagar passagem de ida e volta a João Branco e ouvir liberdade dele querendo si picar antes do último sanfoneiro tocar?” dizia Zé Coco, engolindo uma meiota, de vez e sem tocar o copo nos beiços e se lambendo de tanto gosto.

João Branco é daquelas pessoas que se pode dizer, “homem de sete instrumentos”. Lavrador, criador de abelhas, plantador de feijão, milho, maracujá e mandioca, fazedor de farinha e, no mais das vezes, mecânico desde automóveis a motor de casa de farinha e de serraria; Até espingarda de socar e pistola dois tiros e uma carreira ele consertava, não sei se ainda tem este ofício.

Possuidor de um veículo Saveiro ano 1978 – ao menos era o que ele dizia, porque a frente era de uma cor, as laterais de outra e o fundo já tinha tanto remendo que nem se sabia ao certo que carroceria era aquela; sem um farol dianteiro, nenhum na traseira, pneus carecas, pisca-pisca (seta) Deus te livre. Carregava de uma só vez até dezesseis pessoas adultas, sem contar os meninos que as mulheres levavam no colo.

A conversa continuava animada e era um péra aí, aquieta acolá da gota. Cada quem querendo falar por primeiro que o outro para dar a sua opinião sobre a festa desejada.

Tonho de Paulo é um homem de pouca conversa, não usa bebida alcoólica, mas tem um lado de pilhéria muito interessante e inteligente; coisa de gente sonsa mesmo.

Pra se ter uma ideia, ele dificilmente vai às compras na feira livre. É de casa pra roça e da roça pra casa. Naquele dia estava ali porquê ia passando e os amigos lhe gritaram para uma prosa, por pequena que fosse.

Num dado momento da prosa, Tonho de Paulo depois de ouvir as ideias de festas e coisa e tal, saltou de lá e disse: “homi é mermo, né?! Pur quê nois num faz nosso forró aqui mermo, com as figuras daqui mermo, lá no salão do prédio escolar?”

Mingo de Toinzinho Bispo, já beirando a aposentadoria, não aceita trabalhos mais duros – só mesmo tanger gado e, mesmo assim, antes do sol botar calor na terra ou depois dele se pôr - não se fez de rogado: “bem meus camarada, figura pra dançar nois tem até dimais; o som a gente pode chamar João da Porca pra trazer o dele e os infeite a gente pede a Seu Mirez – fazendeiro e comerciante, proprietário da Fazenda Grutas do Seremão e da JM Sat – por conta da propaganda da casa de comércio dele antes e durante o arrasta-pé”.

João da Porca é um músico multifacetado, toca ao mesmo tempo vialeijo (gaita), sanfona, bate pratos com o pé esquerdo e bumbo com o pé direito – é uma banda ambulante, não precisa de ninguém pra fazer uma festa relâmpago, se alguém quiser - é o ferreiro remanescente na cidade do Soure, depois que Luiz de Chancho morreu e que Cabelinho de Zé de Grancino, lá do Paiaiá, deixou o ofício.

João de Pedro, com a paciência de Jó que lhe é peculiar, estava assim do lado, afastado uns dez metros e pitando seu cigarro de fumo de corda, se lembra de uma coisa que era primordial para a festa e se dirige aos resenheiros: “vamicêis tão esquecendo do principal, num tão não? Cum que safona? Nem uma concertina nois tem aqui no Seremão. Até a que seu Quintino de Prima deixou pros fios Elísio carpina carregou pra rua e nunca mais tocou sequer. Ninguém sabe se ainda tá viva a coitadinha. Tanto que tocou aqui nas rezas de Cosme e Damião e nas festas de Santa Isabel!”

Pronto, e agora?! Todos responderam quase que em uníssono: é mermo rapaz! E nois nem tava se alembrando disso, ajudou Zé Oreinha.

Naquele momento estava instalado o problema e era necessário ser resolvido logo; afinal o São João já tava em cima.

Nini, nora de João de Pedro, que também vinha da limpa da lavoura de maracujá e acerola na Fazenda da Cajuba – projeto agro-industrial do então Banco Econômico - falou logo: “péra aí, pera aí, num tem nada de difíce nisso, eu soube que lá no Povoado do Cabeleiro tão vendeno uma Oito Baixo, se não me engano igual a que seu Quintino de Prima deixou pros fios dele.

A oito baixo é de Pedro de Nita e ele tá pedindo oitocentos e cinquenta contos; num tira um minréis – num adianta nem chorar. Quem me disse isso foi Vando de Carlinho de Bêia. É só percurar ele e saber direito essa estória.”

Zé Preto de Expedito, assim de lado, conversando com Zé de Regina disse: “tocar eu até toco. E toco a noite toda sem parar, mas exijo respeito e num quero brigadeira de bêbo, nem dentro nem fora do salão, muito menos neguinho com faca na cintura, metido a valentão. Eu aprendi a tocar foi com seu Argemiro Juazeiro, aquele hômi que tocava nas festa do Padre e dizia uns versos bonitos pra depois vendê nuns livrinho que ela mandava fazer lá na Bahia, com a ajuda do Padre Otávio.”

Após todo aquele converseiro espontâneo e das atitudes de cada um dos que se manifestaram, a união se fez de imediato.

Dali em diante todos, a uma só voz, falavam afoitos e com alegria transbordando: vamos juntar uns garangau e comprar a oito baixos de Pedro de Nita.

Ali chegava o momento de ter a primeira edição do São João do Seremão; um marco histórico, pra vida toda.

Deram início às ofertas pessoais:

Zé Côco de Carlito de Jovino doou duas diárias das que ia receber de Seu Mirez pela limpa do milho e capim;

Zé Branco de Quintino de Prima, como tinha sobra de feijão de plantar, doou dois sacos de oitenta litros;

Zezinho de Toinzinho Bispo disse: apois vamicêis anotem ai que eu vou dar uma porca. Tá

cevada na mandioca e tem quase cinco arrobas;

Pedrinho de Zé Bispo – dono de serraria, capinteiro, fazedor e assentador de cancela tinha acabado de chegar no terreiro da venda de Zé Oreinha e disse: “pode deixar que eu vou fazer o palco pro sanfoneiro e os tocadores de zabumba, triângulo e pandeiro.” Portanto fico desobrigado de doar valor pra compra da sanfona.

Afastado um pouco da roda de conversa e trocando umas ideias com Tonho Surdo e Grandão de Deraldo de Nicomedes, tava Expedito que acabara de apear do seu jegue nominado brincadeira, vindo da roça de Dé de João de Ninguém onde trabalhou o dia inteiro aprumando cerca e tapando buracos “pros bicos num entrá na roça do hômi”.

Após ouvir um bocado de ofertas, se dirigiu aos presentes e falou forte pra todo mundo ouvir: “sei que vamicês tão doido pra fazer esta festa e eu não vou levar desfeita de jeito e qualidade.

Dou o jegue brincadeira. Vamicês que vendam e interem a sanfona.

Quando achar o comprador é só mandar ele ir oiá na minha maiada e, se ele num tivé lá é porquê tá me levando dum lado pro outro nas minhas andança. Se o cabra gostar e comprar é só me dizer que entrego na hora e volto pra casa a pé; deixo a cangaia lá no curral de Dé e depois vou buscar num poldo novo que tô amansando.”

Expedito era velho tocador de oito baixo e já não pegava numa concertina fazia mais de trinta anos. Quando ele ouviu falar em comprar a oito baixo de Pedro de Nita os olhos brilharam que só espelho de salão de palácio.

Imagine você que ele sequer ensinou a Zé Preto, mesmo sendo tocador e conhecer o ofício. “Sabe como é, né?! Pai ensinar ofício a filho é complicado, porquê às vezes o cabra se distria do rumo do que tá aprendendo e deixa a gente com o juízo fervendo. Como eu sou meio esquentado podia querer dar côbo nele. Aí espatifava tudo, o coitado se amofinava e desistia de aprender.”

Começaram as contagens do que os resenheiros tinham doado. Ia desde dinheiro, produtos da lavoura, animais e até força de trabalho.

“O certo é contar direitinho e anotar, nome por nome e quanto e o que foi que cada um deu”, disse Zé Branco.

“A gente podia anotar tudo nesta caderneta de fiado de Zé Oreinha. Mas das fóias do meio pra frente, prumóde não s’atrapaiá com os direito do coitado e findá misturando o que num é nosso ou que num é dele”, disse Tonho de Paulo.

A tal caderneta de fiado foi eleita, dali por diante, como o “Livro de Tombo” do Seremão.

Qualquer situação que acontecesse refém à festa havia de ser anotada por Vando de Carlinho de Bêia que era o mais estudado daquela turma.

Se ele não tivesse presente no dia ou momento, alguém passava a informação pra Zé Oreinha que se encarregava de dizer a Vando, tintim por tintim, pois tinha uma memória muito boa – é aquele velho ditado: “Deus quando tira uma habilidade aumenta em outra pra compensar”

A caderneta era um livro de capa dura que Zé Ramos tinha levado pra ele Oreinha, no ano de 1967, com a finalidade de anotar as empreitas de limpeza de pasto, roçagem e destoca na Fazenda Buraco D’água, tudo sobre a direção de Seu Fiinho (batizado Virgílio Barreto da Costa) e o rancho sob a responsabilidade de Zinho Bungunço.

No frigir dos ovos, assuntaram que dava pra conseguir o valor da oito baixo.

Pronto, pronto; feito o negócio, disse Vando de Carlinho de Bêia: “Zé de Regina, que é de lá do Cabeleiro, vai se encarregar de recolher as doações, transformar em dinheiro na segunda-feira e comprar a sanfona de Pedro de Nita e tem que ser logo no outro dia, num dá pra demorar porquê Zé Preto ainda tem que ensaiar as modinha de tocar no dia da festa.

Empreitada de sucesso. Zé de Regina, após pegar os valores em dinheiro e fazer outros valores com a venda das doações, apurou novecentos e quarenta e cinco contos de réis.

De novo se encontraram na venda de Zé Oreinha, no finalzinho da tarde da segunda-feira, alguns queimados das pingas que tomaram na feira lá da rua, outros com seus bocapius entupidos de mantimentos comprados e alguns outros com seus bundás de farinha e feijão, separados no mesmo saco.

Logo de primeira, Zé de Regina pediu o “Livro de Tombo” a Oreinha para as devidas anotações do apurado em cada bem doado e em cada mão.

Destrinchou uma a uma cada venda e um a um cada recebimento.

Fez a soma, tirou a prova do noves fora e anotou no final, “apurei novecentos e quarenta e cinco contos” e rubricou.

Vando de Carlinho de Bêia só teve o trabalho de dar o “ok” em cada linha escrita por Zé de Regina e, fez a leitura do todo anotado, evidentemente anunciando o valor apurado.

“Mas...., pere aí, pere aí”, disse Carlinho de Astério – que doara vinte litros de leite de vaca. Ele mesmo vendera e entregara o dinheiro ao arrecadador – “vai sobrar dinheiro depois da compra da sanfona.”

Num tem pobrema, disse Tonho Surdo, com o resto a gente compra a pinga pra noite de São João. Os vaso a gente pede emprestado aos fios de Juquinha e entrega depois da festa.

Consenso rápido. Ninguém contestou, ninguém titubeou, todos disserem um sim em sintonia tão perfeita que pareceu ser voz única.

Terça-feira, quase metade do mês de junho, distante apenas doze dias para a festa sonhada e marcada. Sanfona comprada, entregue a Zé Preto de Expedito, para começar a ensaiar as modinhas.

Principiou por Asa Branca e Apologia ao Jumento de Gonzagão, indo até a Sivirinha Xique-Xique e o Rock do Jegue de Genival Lacerda, sem esquecer o Forró Desarmado do Trio Nordestino.

Zé Preto fez uma lista bem grande das modinhas para não ter que repetir música durante a festa; queria mostrar que com ele num tinha esse negócio de toque essa, toque aquela não.

Era 24 de junho - chegado o dia da Festa de São João!

A alegria tomou conta daquela povoação antes do sol nascer. A notícia já tinha corrido lugarejos afora e a festa é a notícia daqueles tempos.

Ainda que fosse um ano de eleição, ninguém dava trelas pra esse assunto. “Num quero nem sabê quem ensinou nambu se fazê de morta, quero mermo é dançar na sanfona de Zé Preto de Expedito” era o bordão mais ouvido na redondeza.

Os rapazes do lugar estavam num pé e noutro que nem quaquê macho; comentavam em rodinhas de bate-papo como seria a postura de cada qual lá na festa – alguns diziam que já estavam de olho nesta ou naquela menina dos seus sonhos; outros, comedidos, pouco ou nada revelavam.

As moças cuidando dos cabelos, dos vestidos e das pinturas faciais para se apresentarem no salão de dança tinindo e, quem sabe, ali conhecerem o amor da sua vida e formarem, adiante, uma nova família.

Naquele dia choveu da manhã à noite, uma chuva fina, fria e molhadeira.

As mulheres enfeitaram o prédio escolar com bandeirolas e os homens cercaram a parte da entrada com palhas de licuri.

João da Porca veio instalar o som e exigiu muito cuidado com seu material, pois ainda ia alugar a Teodoro de João Sabiá, pra festa de São Pedro no Raso.

Tudo checado, tudo nos conforme, tudo como tinha sido idealizado.

Chegou a hora da festa.

Uma baita de duma fogueira, de toco de jurema preta, foi feita na frente do prédio escolar. Pelo tanto de toco que colocaram dava pra queimar por uns três dias ou mais.

Um sucesso!

Alegria geral naquela noite!

Mas as regras para a festa eram rígidas. Foi combinado o seguinte: se o cabra num fosse do Seremão, pra entrar no salão só com convite.

A triagem era feita por Toinho de Carlito de Jovino porquê num bebe nem dança. Mas, namorador que só ele, e de olho da irmã de algum visitante, quebrava o galho pra um e pra outro lá do Tinguí, onde ele foi praticamente criado por sua tia.

Começou a festa dançante por volta das dez horas da noite.

A noite tava um bréu, num tinha uma estrela no céu, mas a fogueira de toco de jurema se encarregava de iluminar o ambiente de fora do salão.

Uma modinha de lá, outra modinha de cá, um pedido ali, outro acolá, e Zé Preto de Expedito seguia firme, orgulhoso e fagueiro na oito baixos.

Num parava pra nada deste mundo. Com ele num tinha esse negócio de intervalo não. Foi assim o combinado antes de ele começar o ensaio das modinhas.

Se o sanfoneiro não aguentasse que pedisse arrego. E nada de Zé Preto fraquejar.

Expedito, lá pela madrugada adentro, lembrou da doação do jegue brincadeira e, querendo dar uma canja, gritou a todos pulmões: “para; pára sanfoneiro. Eu agora vou tocar uma modinha que aprendi quando tava em São Paulo. E qui negócio do levunco é esse de Zé Preto num parar nem pra verter água? Qu’eu vou tocar uma, vou. Vamiceis vão ver como se toca uma oito baixo de verdade, vão gostar e vão dançar sem diferença das tocadas por Zé Preto!”

Instalada a querela do toca num toca. Foi um alvoroço dos inferno.

Um dizia, tu sabe lá tocar urubu de seca!.

Outro dizia, quem é doido de se disfazer destas músicas de Zé Preto pra escutar Expedito que é barbeiro c’uma peste na concertina. Só se tivé o miolo mole?!

Tentaram uma solução diplomática – Expedito tocava o princípio da música e Zé Preto do meio pra frente. Sem nenhum sucesso. Não teve jeito, a maioria não aceitou.

Zé Oreinha de lá do canto do salão levantou dum pulo só. Sem saber pra onde tava se dirigindo, parou e o falou: “toca pra frente; puxa o fole aí Zé Preto. Nois só sai daqui dimanhã e com você seguro no fole da oito baixo.

E vamicê s’aquete viu cumpadi Expedito, purquê num vai tocar coisa nenhuma não, num sabe?!.

Depois da festa vamicê, peça emprestado a oito baixo e leve pra sua casa pra tocar pra sua famía: pra cumade Liocádia, pra suas mininas, pro seu sogro, pra sua sogra, pra todo mundo que vamicê quisé, mas pare com esse negócio de querer tocar aqui.

Nois é que num vamo estragar os uvidos com seu lenga-lenga, abardeiro do jeito que vamicê é e ainda por cima bêbo qui nem um gambá.”

Expedito, já c’umas vinte meiota na cabeça, não se fez de suplicado e esbravejou, já quase roçando o seu nariz no de Zé Oreinha:

“Como é que é, cumpadi Zé, num vou tocá?!!!

Apois eu toco essa bobônica e vai ser agora, se dirigindo ao palco onde Zé Preto dedilhava a oito baixo.

E vamicêis todos num s’esqueça viu. Cuma Zé Branco tem dois sacos de feijão, Zezinho uma porca, Zé Côco dois dias de trabalho e Carlinhos de Astério vinte litros de leite, eu tenho é um jegue dentro dessa sanfona.”

Êita diabo!, gritou Elísio de Quintino de Prima: agora sim, acho que tá feita a confusão do toca, num toca.

Foi uma esparramação de gente sem tamanho, correndo pra fora do salão com medo de um mal maior. Teve uma criatura que saltou pela janela, o vestido enganchou no ferrolho e ela caiu lá fora só de calcinha e o califon. Ô disfeita da mulesta!

Os compadres, em discussão acalorada, subiam o tom da voz a cada frase, sem se agredirem fisicamente, óbvio.

Acabou-se a festa..... todos a caminho de casa e a resenhar sobre as músicas, os passos dos dançantes, a insensatez de Expedito e o seu jegue dentro da sanfona.

Tonho do Paiaiá

Na minha velha Natuba, em agosto de 2015

(Agradecimentos às pessoas que contribuiram com fotografias e imagens para publicação deste texto, a saber: Mestre dos Oito Baixos Luizinho Calixto, via Dr Renato Moreira e Fotógrafo Antonio Siqueira, via Dr Dilvandro Mendonça)



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